segunda-feira, 15 de novembro de 2010

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1 comentário:

  1. Sim, passava aqui frequentemente há vinte anos...

    Nada está mudado — ou, pelo menos, não dou por isto —

    Nesta localidade da cidade ...



    Há vinte anos!...

    O que eu era então!

    Ora, era outro...

    Há vinte anos, e as casas não sabem de nada...



    Vinte anos inúteis (e sei lá se o foram!

    Sei eu o que é útil ou inútil?)...

    Vinte anos perdidos (mas o que seria ganhá-los?)



    Tento reconstruir na minha imaginação

    Quem eu era e como era quando por aqui passava

    Há vinte anos...

    Não me lembro, não me posso lembrar.



    O outro que aqui passava, então,

    Se existisse hoje, talvez se lembrasse...

    Há tanta personagem de romance que conheço melhor por dentro

    De que esse eu-mesmo que há vinte anos passava por aqui!



    Sim, o mistério do tempo.

    Sim, o não se saber nada,

    Sim, o termos todos nascido a bordo

    Sim, sim, tudo isso, ou outra forma de o dizer...



    Daquela janela do segundo andar, ainda idêntica a si mesma,

    Debruçava-se então uma rapariga mais velha que eu,

    mais lembradamente de azul.



    Hoje, se calhar, está o quê?

    Podemos imaginar tudo do que nada sabemos.

    Estou parado física e moralmente: não quero imaginar nada...



    Houve um dia em que subi esta rua pensando alegremente no futuro,

    Pois Deus dá licença que o que não existe seja fortemente iluminado,

    Hoje, descendo esta rua, nem no passado penso alegremente.

    Quando muito, nem penso...

    Tenho a impressão que as duas figuras se cruzaram na rua, nem então nem agora,

    Mas aqui mesmo, sem tempo a perturbar o cruzamento.



    Olhamos indiferentemente um para o outro.

    E eu o antigo lá subi a rua imaginando um futuro girassol,

    E eu o moderno lá desci a rua não imaginando nada.



    Talvez isso realmente se desse...

    Verdadeiramente se desse...

    Sim, carnalmente se desse...

    Sim, talvez...

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