Estou em modo tudo. Quando à noite quero um abraço, sei exactamente o que fazer. E sei exactamente como me sentir. E o que pensar, também o sei com precisão. Tanto é que durmo e o vago desvagueia. O abraço continua na cabeça, e a cabeça já está fora do abraço. Agora. A cabeça tem de se ocupar com coisas menores (isto não depende do lado através do qual o estivermos a ver?) e essas coisas menores têm que, forçosamente, se tornar interessantes sob qualquer ponto de vista. Sob qualquer lado pelo qual escolhamos, hoje, ontem, de noite ou de dia, olhar para elas. Essas coisas são aquelas sobre as quais os textos de qualquer pessoa não são interessantes. São também essas coisas que tratam os homens que têm talento, e que – escrevendo sobre uma pedra, sob o mar, debaixo da terra ou atrás do Sol – falando sobre elas, qualquer letra e frase e parágrafo e vislumbe se torna matéria digna de meditação.
As coisas tais menores, ou não, não são escolhidas por mim. Ou são. Pois não, não acredito que isto ocorra só comigo, por isso vou partir já do princípio de que algum dos alguéns que ler isto já tenha elaborado este plano mental sub-consciente. As ocupações mentais são só racionais no momento em que decidimos contratá-las. Contratá-las, para virem passar os dias connosco. A partir daí, a nossa intervenção é meramente de hospedeiro, de tesoureiro, de pessoa que requisitou um serviço e que o tem de fazer cumprir, mesmo que o não queira. Pois, por isso a chamo (ou se chama ela a si própria), de sub-consciente. Esta ocupação, vou comparar, é um insecto. Um insecto, uma mosca, que é bonita porque come a matéria apodrecida; e chegamo-nos mais perto dela. Depois disso, ó, ela mordeu-nos. Mordeu e impingiu-nos o seu material. E é a partir daqui que as ocupações mentais (mosquinhas lindas e formosas que comem fruta em putrefacção = pensamentos fantásticos e cintilantes que nos chamam por podermos pensar neles enquanto…) deixam de ser comandadas por nós e passam elas próprias a comandar-nos.
Passamos tempo suficiente a meditar nelas, nas coisinhas cintilantes e novas. E simples; às vezes, contratamos coisas simples – mas isto depende das nossas condições monetárias na altura da necessidade - , convém afirmar. Até nos apercebermos que, meditando, as moscas afinal comem FRUTA PODRE! E não são muito bonitas, convenhamos. Mas, elas prestam um trabalho belo à humanidade. Não assim é? Os pensamentos foram generosos connosco…, tal como as moscas o são a todos os restantes seres vivos. Os pensamentos ajudaram-nos. Os pensamentos ajudaram-nos... Não pedimos abraços a ninguém. Não ficámos mal vistos. Não bebemos demais. Nem cometemos nenhuma loucura. Porquê? Porque tínhamos os pensamentos em vez dos abraços. E os pensamentos, estes ou outros quaisquer, são coisas fortes. Coisinhas muito muito fortes. Tão fortes que evitam actos, impressões ou elucidações.
Assim é. E o problema não é o elas serem sub-conscientes (as ocupações mentais, claro, não as moscas), ao contrário do que possa parecer. Se fossem conscientes, não causariam problemas. Se fossem inconscientes, causariam danos menos visíveis. Mas estas coisas estão assim, como quem não quer causar muitas confusões, no meio de toda a racionalidade, reciprocidade e consciência. Estão. O problema é, na verdade, termos sido nós a contratá-las. E o problema surge assim antes de existir o próprio problema.
Porque, da próxima vez que pensar num abraço, vou-me lembrar da direcção errada. Moscas da fruta. Ou peneiras a tapar o Sol. Ou outra metáfora ainda mais fantástica. E, isso, vai-me levar na direcção da meditação propositada.
domingo, 23 de janeiro de 2011
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